Associação APOIAR

Associação de Apoio aos Ex-combatentes Vítimas do Stress de Guerra ____________________ apoiar@mail.telepac.pt

quinta-feira, agosto 17, 2006

Parecer do Dr. Afonso de Albuquerque sobre PTSD (parte V)


8 - CONCLUSÕES

A - As características encontradas nas amostras clínicas de ex-combatentes portugueses portadores da Perturbação Pós-Traumática do Stress, com origem na exposição ao combate (1961 - 1975), são no essencial semelhantes às descritas em estudos sobre população clínicas de ex-combatentes de outras nacionalidades e de outras guerras;

B - O curso mais frequente da doença inicia-se (fase aguda) durante o combate (em 30% dos expostos) que pode ou não evoluir, ao fim de alguns meses, para a fase crónica (em 15%), indicando-se para Portugal a existência de 50 - 55 mil vítimas desta doença (em 2003);

C - A maioria dos doentes não pede ajuda médica especializada ou só o faz quando atinge uma fase da sua vida (meia idade) em que as incapacidades laborais, socio-familiares e psicológicas se acentuam e se instala um processo de deterioração progressiva que pode levar à incapacidade parcial ou total para o trabalho. A imagem que nos ocorre é a da bomba ao retardador plantada pela experiência da guerra no organismo (e memória) destes homens, cuja mecha vai ardendo lentamente até que explode anos mais tarde. A correlação com o consumo abusivo de álcool em 10 - 20% destes doentes, toma o seu prognóstico clínico e dereintegração socio-laboral mais reservado.


Lisboa, 4 de Maio de 2006

Parecer do Dr. Afonso de Albuquerque sobre PTSD (parte IV)

6 - PREVALÊNCIA

A prevalência actual desta doença vai depender da ocorrência de situações de guerra e de quantas pessoas lhe forem expostas. Em relação à Guerra Colonial - 1961-1975, estima-se que foram mobilizados 800.000 homens mas não sabemos quantos foram expostos ao combate. Estimativas americanas, confirmadas por estudos feitos com militares de outros países (Inglaterra, Israel, Rússia, etc.) apontam para que 30% dos expostos ao combate sofrem desta doença durante o combate e que cerca de metade (15%) continuam doentes anos mais tarde. O único estudo epidemiológico realizado em Portugal, na população maior de 18 anos, indicou a existência de 55.000 ex-combatentes da Guerra Colonial vitimas desta doença (A. Albuquerque e outros ­Perturbação Pós-Traumática do Stress (PTSD) - Avaliação da taxa de ocorrência na população adulta portuguesa - Acta Médica Portuguesa - 2003). Este número é muito próximo do calculado por extrapolação para a população portuguesa dos dados americanos e dos outros países, se estimarmos que 40% dos 800.000 militares (300.000) estiveram expostos ao combate 100.000 (ou seja 30%) sofreram sintomas agudos da doença durante o combate, dos quais 50.000 (15%) passaram à fase crónica (doença actual).


7 - CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS

À luz de alguns dos estudos clínicos realizados sobre os ex-combatentes portugueses ("Estudos sobre o Stress Traumático" - Suplemento 1, Revista de Psiquiatria, 1997), indicamos resumidamente algumas das suas características principais:
A - Socio-demográficas
Idade média actual - 55 anos
Estado Civil
- Casados - 80 -85%
- Solteiros- 9 - 10%
- Divorciados - 6 - 7%
Classe Social
- Maioria Classe II e III
- Reformados - 10 -20%

B - Características psico-patológicas
43% com antecedentes pessoais significativos (traumáticos, familiares, psiquiátricos)
Curso crónico em 80 a 90% dos casos
Grau de incapacidade (social, laboral e familiar)
- Ligeiro - 20%
- Moderado - 40%
- Severo - 40%

C - Patologia associada:
Depressão - em 50%
Fobias, Ansiedade - em 25%
Alcoolismo - em 20%
Doenças cardiovasculares - em 10%
Doenças gastro-intestinais - em 20%
Doenças Tropicais - em 15%
Doenças psicossomáticas (sexuais, dermatológicas, algias atípicas, cefaleias, etc.) - em 40 - 50%

Parecer do Dr. Afonso de Albuquerque sobre PTSD (parte III)

4 - CURSO

A doença manifesta-se geralmente logo após o trauma mas pode ter um inicio mais retardado, numa minoria de casos (período de latência).
Após o regresso da guerra, verificaram-se 3 tipos de evolução:

A - Desaparecimento total da sintomatologia descrita, com regresso gradual à normalidade ao fim de alguns meses (40-50% ?);

B - Melhoria acentuada mas mantendo-se alguma sintomatologia residual e persistente (nomeadamente os sintomas do grupo A e C). Esta melhoria permitiu a muitos uma suficiente reintegração social, laboral e familiar durante anos, mas registou-se um agravamento dos seus sintomas a partir da meia-idade. Este agravamento está dependente dos acontecimentos stressantes da vida e do envelhecimento, seguindo a doença um curso crónico e raramente reversível a partir daí (30-40%?);

C - Não registaram melhoria sensível da sintomatologia após o regresso mantendo-se nesse estado até ao presente, ainda que sofrendo algumas flutuações. Neste grupo minoritário incluem-se em regra os que continuaram a consumir álcool abusivamente(10-20%?).

5 - MODELO DE AQUISIÇÃO

Segundo o Modelo Conceptual Cognitivo-Comportamental (indivíduo <-> ambiente) de D. Foy (1992), talvez o mais bem estabelecido actualmente, qualquer pessoa exposta a uma situação traumática (com as características já referidas) responde com uma "reacção emocional condicionada" (por exemplo alarme, medo, horror, frustração, desespero). A resposta de evitação (cognitiva, emocional e comportamental), leva à redução da ansiedade e do medo na fase inicial, o que por sua vez reforça a resposta de evitação, conduzindo eventualmente ao aparecimento da fase aguda dos sintomas da doença. Cada indivíduo responde também de acordo com outras variáveis adicionais (de risco ou de protecção), diferentes para cada um de nós, tanto de ordem biológica, psicológica como social e que vai influenciar a passagem ou não da fase aguda para a fase crónica. No entanto, os factores mais importantes da probabilidade de desenvolvimento da doença para cada traumatizado, são aqueles que têm a ver com as características de situação traumática; severidade, duração e proximidade (dos factores traumáticos). São considerados menos importantes os outros factores adicionais já referidos (por exemplo suporte social e familiar, experiências na infância, variáveis de personalidade, doençapsiquiátrica prévia, património genético, treino e experiência militar).

Parecer do Dr. Afonso de Albuquerque sobre PTSD (parte II)

2 - DEFINIÇÃO

A principal característica é o desenvolvimento dos sintomas típicos após ter sido exposto a uma situação considerada para além da experiência humana normal. Essa situação traumática terá que ser identificada como stressante e significativamente perturbadora para a maioria das pessoas. A exposição ao combate é considerada talvez a mais traumática de todas as situações, pois pode reunir factores de stress comuns a várias outras situações traumáticas como por exemplo ameaça grave à vida e/ou à integridade física (tanto do próprio como dos seus camaradas) destruição violenta de comunidades, tortura, morte ou maus tratos a crianças, violação de mulheres, fome, sede, etc.

3 - SINTOMAS

Podem organizar-se em três categorias:
A - Reexperiência dos acontecimentos traumáticos como por exemplo pesadelos recorrentes com cenas vivenciadas na guerra, "flash-backs" diurnos, etc.;
B - Evitação sistemática dos estímulos associados ao trauma como por exemplo evitar falar do passado militar, ver filmes, reportagens ou noticias sobre a guerra, etc.;
C - Sintomas de hiper-reactividade neuro-vegetativa como por exemplo reacções de alarmedesencadeados por algo que faz recordar a guerra (foguetes, etc.), nervosismo e ansiedade aumentadas, perturbações psicossomáticas (digestivas, cardiovasculares, dermatológicas, etc.).

Parecer do Dr. Afonso de Albuquerque sobre PTSD (parte I)

A "Perturbação Pós-Traumática do Stress", com origem na exposição ao combate na Guerra Colonial (1961-1975)


1 - ALGUNS FACTOS HISTÓRICOS

Ainda que haja guerras desde que a humanidade existe e portanto soldados vítimas de trauma, o primeiro relato médico sobre esta doença foi um artigo publicado no "Journal of Medical Science" em 1871, intitulado "Irritable heart syndrom", pelo Dr. Da Costa, um cardiologista americano de origem açoriana, sobre a sua experiência de tratamento de soldados expostos ao combate, durante a Guerra Civil americana. Mas as duas Grandes Guerras permitiram à classe médica um conhecimento aprofundado desta doença, designada então como "Shell Shock" (ou neurose de guerra) responsável por 23% das evacuações na n Guerra Mundial, no exercito americano. Após o fim da guerra, trabalhos como os de Futterman (1951) vieram pela primeira vez apontar para a existência de sintomas comuns (pesadelos, ansiedade, etc.) em ex-combatentes, sugerindo a possibilidade de uma evolução prolongada após a fase aguda (durante o combate). Simultaneamente assiste-se à evolução do conceito de "neurose de guerra", com a sua ênfase "freudiana" nos "factores predisponentes" da personalidade individual, para a importância da análise da situação de combate e das suas características na compreensão da origem desta doença.
Com a Guerra da Coreia assiste-se ainda mais à evolução para conceitos mais clínicos e pragmáticos, como por exemplo o tratamento "no local" do traumatizado e o retomo ao combate logo que possível, pelo que só 6% das evacuações foram de ordem psiquiátrica.
Mas os estudos sobre os ex-combatentes americanos da Guerra do Vietnam, na década de 60-70, levaram a classe médica americana, nomeadamente as suas organizações psiquiátricas, à conceptualização do diagnóstico e do curso desta afecção, que aparece pela primeira vez com a designação actual de "Perturbação Pós Stress Traumático" (Post-Traumatic Stress Disorder), no "Diagnostic Statistic Manual" (DSM-3), em 1980 a lista oficial americana da classificação das doenças psiquiátricas, no capítulo das "Doenças Ansiosas", a que se segue a sua inclusão na Classificação Internacional das Doenças (CID-lO), pela Organização Mundial de Saúde, em 1993.

sexta-feira, julho 21, 2006

Jornal


A APOIAR tem um jornal bimestral. Os artigos versam a problemática da Guerra Colonial, do Stress de Guerra e dos direitos dos seus associados. É de referir que a presente publicação atingiu já uma tiragem de 8500 exemplares que são enviados gratuitamente para casa dos sócios e de muitas organizações particulares públicas.

quinta-feira, julho 20, 2006

Apoio aos Sócios

A APOIAR presta, gratuitamente, aos seus beneficiários (doentes e seus familiares) os seguintes serviços:

APOIO JURÍDICO
Dr.ª Isabel Estrela

APOIO SOCIAL
Dr.ª Sofia Pires
Dr.ª Filipa Santos

APOIO MÉDICO e PSICOLÓGICO
Director: Dr. António Santinho
Psiquiatra: Dr.ª Lucília Bravo
Clínica Geral: Dr. Vicente Cruz
Psicologia: Dr.ª Susana Oliveira; Dr.ª Carla Santos; Dr. Nuno Duarte.

Existem terapias de grupo para homens e para mulheres, apoio terapêutico e Grupos de auto-ajuda, também para homens e mulheres.

As consultas podem ser marcadas por telefone 213 808 000 ou telemóvel 961 953 963, com o Sr. Ivo Figueira.

Horário: o expediente funciona das 09h00 às 19H00.

quarta-feira, julho 19, 2006

Instituição Particular de Solidariedade Social


A APOIAR nasceu da iniciativa de um grupo de técnicos e pacientes sujeitos a terapia de grupo, em 1998, nos Serviços de Psicoterapia Comportamental do Hospital Júlio de Matos. O Dr. Afonso de Albuquerque e a Dr.ª Fani Lopes foram os grandes impulsionadores desta iniciativa.Em 1994, a APOIAR é legalmente constituída como Instituição Particular de Solidariedade Social, com Estatuto de Utilidade Pública.